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A cerveja também é nossa!

Com o mês de março vem semana da mulher, mês da mulher, promoções, descontos e campanhas milionárias para promover o Dia Internacional da Mulher. Estratégias e formas diferentes de tentar compensar o abismo entre a igualdade entre homens e mulheres (principalmente no meio profissional).

A verdade é que nós mulheres estamos cansadas desse dia, de ouvir: “parabéns por embelezar nossas vidas, parabéns por iluminarem nossos caminhos, obrigada por cuidarem de nós.” Me desculpe, mas não estou aqui para embelezar nada, eu estou iluminando meu próprio caminho dessa vez e estou cuidando de mim mesma. Ainda me admira que neste século ainda seja necessário, e é, ter um dia pra lembrar de nossa luta, mesmo que ela seja todo dia.

É certo que, em toda área existe machismo e falta de igualdade, mas o meio cervejeiro tem suas particularidades, e o que mais tenho convivido.

Nas últimas duas décadas, a mulher foi usada, sim usada, como forma de promover produtos, principalmente aqueles que eram considerados de público masculino. Eu cresci assistindo diversos comerciais de TV que tinham como figura principal uma mulher, com pouca roupa, oferecendo uma cerveja para um cara babando por ela. E na sala de casa por vezes meu pai exclamava: “Ah, eu queria uma loira dessa”. Aquilo sempre me incomodou, e ele sabia que eu sempre brigava quando ouvia esse tipo de comentário (e é assim até hoje, rs).

Depois veio o verão, muitos verões, cada vez mais abafados, tanto que nem uma cervejinha gelada dava pra refrescar o incômodo que essas campanhas traziam para as mulheres. E ainda teve cervejaria lançando cerveja rosinha, perfumada e delicada como as mulheres.

Todo mês de março a gente acompanha a mesma procissão das campanhas de marketing que ainda insistem em trazer esse perfil de produto associado à mulher. Olha, citando Cilene Saorin, mestre cervejeira, ninkasi brasileira: “Não pense que vender à uma mulher significa pintar um produto de rosa”. É preciso muito mais que isso, hoje não adianta ter posicionamentos em datas pontuais como essa, a gente quer ver na prática!

Quantas mulheres tem na sua equipe? Na sua cervejaria? Elas estão recebendo as mesmas oportunidades para crescer? Elas são ouvidas da mesma forma que os homens? São perguntas diárias, são reflexões constantes.

Uma amiga que é do meio, enviou o currículo para uma vaga de cervejeira numa cervejaria, depois de muito tempo sem resposta, pediu para um antigo professor que tinha conhecimento na empresa dar uma sondada sobre a possível vaga, e o que ele ouviu? “Ah, recebi esse currículo sim, como é mulher eu nem ia ver, mas como vc sinalizou, vou dar uma olhada”.

Definitivamente isso não é igualdade. “Você consegue carregar uma saca de malte? Será que aguenta o tranco? O trabalho aqui é pesado. Você gosta mesmo de trabalhar com cerveja? Aqui só trabalha homem, você vai se sentir confortável?”. Me desculpe, achei que a vaga era pra quem soubesse fazer cerveja, não sabia que tinha que ter órgão masculino. Sorry pela acidez, mas não tem como não se indignar com essa situação.

Tem mais de 7 anos que estudo sobre cerveja, e muitas vezes ainda sou questionada por homens que buscam invalidar meu conhecimento, ensinar como servir uma cerveja ou explicar os ingredientes dela. Isso é nítido entre muitas outras colegas de trabalho.

No fim, a gente não quer vantagem não, a gente só quer ser tratada por igual. Que os requisitos sejam nosso conhecimento e experiência, não aparência.

Que possamos agir, além das reflexões de cada ano. Meu trabalho, minha missão, além de falar de cerveja é ajudar a divulgar o trabalho de outras mulheres cervejeiras, eu faço questão. Muitas são inspiração pra mim, de diversas formas e eu espero um dia inspirar outras mulheres também, a beber e fazer cervejas boas.

E se habituem a nos ver no balcão ou na mesa do bar, no chão de fábrica ou no escritório, porque a cerveja também é nossa!

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