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Resenha: A História das Cervejas Inglesas

Uma resenha de um livro para quem gosta de uma imersão na história.

Sabe quando um livro fura a fila da leitura, dá um pialo (na gíria sulista é dar uma rasteira)  e se torna o queridinho dos momentos de leitura? É assim com A História das Cervejas Inglesas do Martyn Cornell da editora Krater.

Uma viagem pela cultura cervejeira inglesa através das suas cervejas, contada de forma brilhante, elucidativa por Corner. Trazendo documentos, dados e fatos históricos, o autor nos conduz pela história não só das cervejas inglesas, mas da história que as circulam, seus momentos históricos, suas cervejarias, suas raízes, suas mudanças estruturais ao longo do tempo que criaram um estilo .

“No entanto, parece que o que muitos cervejeiros estava fazendo era simplesmente renomear suas Strong Bitters de guarda como IPA, para dar a elas o prestígio que o estilo Burton tinha conquistado. (…) Essa falta de consistência levava dúvida sobre se a IPA alguma vez foi um estilo adequadamente distinguível ou apenas uma peça sofisticada de marketing para uma bitter bem lupulada”.


Enfim, Martyn Cornell nos conduz pela história numa narrativa que nos instiga a curiosidade e nos leva aos mais diversos lugares das ilhas britânicas criando um mapa em nossa cabeça sobre onde se estabeleceram os principais estilos.. 

A História das Cervejas Britânicas
Martyn Cornell – Jornalista e premiado como “Escritor Cervejeiro do Ano” pela British Guild of Beer Writers

O primeiro cuidado é um primor editorial, eles mantiveram palavras que não possuem equivalência sendo explicados em um glossário e notas de rodapé.
Esse primor é importante para um conhecimento mais aprofundado por termos usados e formas como por exemplo, de medidas para entender melhor o universo que está para ser revelado para nós.

De posse de tudo isso, o livro abre com uma introdução e depois se organiza em 16 capítulos, que separam cada estilo de cerveja. Passando por Bitter, Mild, Burton Ale, Porter, Stout, India Pale Ale, Golden Ale, Dinner Ale e Cervejas de Baixa Densidde, Brown Ale, Wheat Beer – Cerveja de Trigo, Barley Wine e Old Ale, Herb Ales – Ales saborizadas e com ervas, Honey Beer – Cervejas e outras bebidas com mel, Heather Ale, Wood Aged Beers – Cervejas envelhecidas em madeira e Lager.

“O trigo tem mais espírito e corpo, e era anteriormente, o único grão considerado digno de malteação, e provavelmente ainda seria, se outras razões [as leis tributárias] não interferissem”

Em todos os capítulos o autor faz uma imersão na história de cada estilo. E esse relato histórico te envia para uma Inglaterra antiga, com suas diversas cenas que construíram a escola cervejeira inglesa que se moldou durante séculos, com suas diversas histórias.

De George Hodgson e sua cervejaria Bow, do outro lado de Middlesex, que ficava “logo acima do Lea a partir de Blackwall, no Tâmisa, área onde os navios da East India Company – Companhida das Índias Orientais – atracavam”, ou as Bitters que muitas ainda são chamadas de Pale Ale pelos seu fabricantes, ou os “aristocratas que não conseguiam conhaque de contrabando e bebiam suas próprias cervejas fortes, envelhecidas e viscosa ao final do jantar” , ou também os Porters que descansavam suas cargas enquanto pediam uma cerveja com seu nome, Porter esses que inclusive estão na ilustração da capa, assim como os Pot Boy que levavam jarros de cervejas nas portas das casas, me fez lembrar as entregas de growlers hoje tão comum nos consumo em casa.

A Ilustração da Capa é uma outra referência incrível. Da obra de William Hogarth, Beer Street retrata as ruas de Londres com seu meio urbano agitado, com seus personagem que perambulam pelas ruas.

“O poema da escritora de século XVIII Mary Darby Robinson, chamado “Manhã de Verão de Londres” cita que, em meio ao “barulho das carruagens, carroças, carrinhos”, “o menino do jarro grita desafinado”

O eixo principal do livro é que é realmente a história das cervejas britânicas, e não a história da escola cervejeira britânica, ou seja, é pelo olhar das cervejas, dos estilos, pelas suas criações, que se percebe os momentos históricos, períodos de fabricação, cervejarias que a narrativa se passa.

E para cada introdução, todos os estilos, Cornell tem um cuidado para fazer uma citação onde se destaca o estilo, como por exemplo em Bitter quando ele cita um poema de Lewis Carroll, do poema Phantasmagoria de 1869 (sim, é ele mesmo, mesmo escrito de Alice no País das Maravilhas).
E essas citações não só ressaltam a importância do estilo na época quanto retrata o período em destaque do estilo. E todas as citações, e poemas, que falam sobre os estilos estão na língua original em um outro anexo no final do livro.

A leitura conduz para um campo de imaginação visual para se compreender onde acontece cada evento, e para visualizar isso, o autor tomou todo o cuidado incluindo um mapa com a localização das regiões de toda a Grã Bretanha e Irlanda para dar um suporte para caso precise saber onde fica por exemplo a região de Kent, famosa pelas plantações de lúpulos na Inglaterra. Mas o mapa serve principalmente para entender como a geografia ajuda a expansão, criação e logística de determinada cerveja.

O livro é de uma narrativa visual impressionante e com todo um arcabouço de referências para ajudar a fazer sua leitura mais agradável e palpável. Você não se sente num campo imaginativo e hipotético, tudo está alicerçado e amarrado para que o leitor tenha uma viagem segura pela história de cada estilo de cerveja, suas origens, seus auges e até algumas mortes, ou desaparecimentos.

Ler a História das Cervejas Britânicas é mergulhar com toda a segurança em um mar profundo cheio de história, de contos, de fatos que percorrem cada estilo que brilhantemente Martyn nos conta.

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